RITO FÚNEBRE – CHORO

Recentemente me deparei com uma das cenas mais horripilantes até o momento. Um rito fúnebre chamado de “choro”, pela etnia Balantá em Guiné Bissau.

As cenas são de fato assombradoras. Primeiro o belo do céu azul e radiante pelo sol; é substituído pela negritude voadora de abutres. Escurecendo a beleza criada, e tornando o ambiente escuro e sombrio. Nunca tinha presenciado um bando de abutres tão próximos com seres humanos; vencendo a luz do dia, e tornando o ambiente uma verdadeira escuridão.

Seus olhos eram como se estive em derrame, suas penas empoeiradas, e coloridas pelas moscas varejeiras. Seu pescoço é pelado aspergido de sangue, e seu azedume odor, trazendo angustia as narinas sobre a fumaça das brasas, que cozinha restos mortais.

Lembrei-me de imediato de Edgar Allan Poe em seu poema: o corvo.

“Cada brasa do lar sobre o chão refletia

A sua ultima agonia”

Naquele momento o abutre sobrevoou em minha direção, e fitou seus olhos carmesins aos meus. Agoniado pelo vermelho olhar, mais uma vez lembrei-me naquele momento o quão Edgar Allan Poe tinha razão.

“Vendo que o pássaro entendia

A pergunta que lhe fazia,

Fico atônito, embora a resposta que me dera

 Dificilmente lha entenderá.

Na verdade, jamais homem há visto

Cousa semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

Num busto, acima dos portais,

Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

Que este é seu nome: “Nunca mais”

Nunca mais eram os gritos que os balantas clamam com muita dor naquele momento. Ao expressar que nunca mais veria seu ente querido. Seus choros faziam certa sonoridade, bem diferente dos nossos em situação de luto.

Com o fechar dos olhos sobre aquela sonoridade angustiante, em certo momento pensei que tinha mudado de ambiente. E naquele lugar empoeirado, rodeado de abutres, sangue, terra, mosca e vísceras. Chopain se apresenta e faz sua Marcha Fúnebre, o som dos meus ouvidos. Cada vocalização, parecia um acorde de seu concerto.

Ao abrir os olhos, o imaginário foi acordado pela triste realidade. Um homem grande (ancião) sacrificando um porco, em companhia de abutres famintos.

O interessante é que em quase todas as culturas, o sacrifico faz parte de algum rito. Ao perguntar ao povo local o seu significado. Eles disserem que o sangue do porco abre portas e caminhos para outra vida.

Quando adentrei no quarto onde havia o defunto. Vi Balantas em prantos sonoros, sentados ao chão, e um cadáver adornado, embelezado para chegar à outra vida. Na cultura eles são enterrados na própria casa. Não me aprofundei sobre suas crenças de vida pós-morte, pois não era o objetivo naquele momento. Porém ao observar os comportamentos do povo local.

Algo que me deixou muito entristecido. O saber que muitos guineenses, fazem suas economias, não para a celebração da vida para com os novos integrantes da família. Muito pelo contrário. Economizam e vivem na miséria para no dia do “Choro” se banquetearem. Muitos miseráveis famintos aproveitam do momento de luto para se alimentarem. Isso  justifica a multidão de pessoas no local do sepulcro. Os dias de comilanças entre homens e abrutes, variam conforme a condições econômicas. Podendo chegar até semanas.

Lamentavelmente entre muitas etnias em Guiné Bissau, não existe uma cultura preventiva para o enfermo. Muito menos, recursos gastos para sua cura, medicação, consultas, pois os recursos gastos são para a morte, e não para vida. Uma cosmovisão opressa pelo escárnio, onde alegra simplesmente algozes. Que pena que para os Balantas, a vida ser só isso.

No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

[1] Poema de Edgar Allan Poe – O Corvo (tradução de Machado de Assis)

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EPIFANIA DO SAGRADO

Na região sul do país de Guiné Bissau, existe um lugar chamado Empada. Ela é uma espécie de vilarejo ou aldeia, ambiente caracterizado pelo calor, poeira, e falta de recursos.

Nessa local cujas vegetações são estáticas e revestidas de terra, dando seu tom marrom sobre a naturalidade verdejante, lugar este, desprezado pelos ventos, e dominado pelo causticante calor.

Assim é Empada. Sua predominância religiosa é muçulmana. Mas o que se destaca nesse povoado inóspito, sofrível; é a alegria, e a hospitalidade. Pois eles dividem com o próximo o seu pão de cada dia, muitas vezes até sem tê-lo. Manifestações de sorrisos em ambientes que para nós são às vezes de murmúrio.  Este povo singelo faz de sua casa a nossa, mesmo sem o conhecê-lo.

Se a Europa esta envelhecida, Guiné Bissau é um verdadeiro jardim de infância. Em Empada as numerosas crianças em diversão, fazem de seus brinquedos, a terra, o pau e a pedra. Correm atrás de um vento que muitas vezes não existe, e fazem da lasca de pau tirado da árvore acabada, as suas mais geniosas inversões, cujo fim é o divertimento.

Nesse contexto hibrido, onde o antagonismo é seu substantivo supremo, há um homem chamado Mario Castro.

Ele é filho de português (branco), com uma guineense (preta), essa miscigenação trouxe ao mesmo, um tom moreno na pela, bem diferente da pele preta do povo local.  Seu pai o abandonou ainda pequeno, sendo criado assim por sua mãe, e, sobrevivendo, a escassez dos recursos naturais, e conflitos como a guerra da independência.

Mario é um homem que em sua comunidade faz tudo. Desde trabalhos da construção civil, pescaria, carpintaria, mecânica, hidráulica, e energia. Cristão declarado. Mario Castro foi fruto de um exímio trabalho realizado por um missionário holandês chamado Hansas. Esse missionário além de ensinar as escrituras e a teologia do cotidiano, instrui o nativo para a vida. Essas habilidades acima citadas do grande Mario é fruto de uma dedicação de vida, realizado pelo Missionário holandês, com exceção da energia.

Mario Castro sempre teve o desejo de ser um eletricista, mas as condições insalubres de sua região nunca o proporcionaram. Além da distancia para a capital Bissau, os transportes para esse fim, era totalmente inexistente. Todavia, Mario sonhava; um sonho que para sua realidade era impossível.

Ele é conhecido por sua integridade, seriedade. Denominado pelos nativos como:

homem bom, pois ele segue o livro do missionário”.

Mario é uma espécie de quinto evangelho.

O evangelho que não se vê nas letras da teologia, mas encontrado na simplicidade e honestidade da vida.

Certa vez, chamado para um trabalho. O contratante ao expressar sua necessidade, expõe a urgência do serviço, e era justamente uma função de trabalho que Mario não dominava: a eletricidade.

A tristeza bateu no olhar. Os olhos que outrora tanto brilhavam para o serviço. Ficaram ofusco pela incapacidade inconclusa do serviço.

Sua integridade falou mais alto. E disse: – não sou capaz de realizar o serviço, por não saber fazer. Pois sabia que qualquer negligencia poderia macular o evangelho.

E assim volta para sua humilda casa. Abatido pela incapacidade da não realização. Entretanto, Mario sonhava, mesmo sem recursos, sem perspectivas, diante um contexto escasso.

Certo dia, num momento em que o vento lança a poeira, iluminado o pó da terra pelo sol;  Mario se lembrou de um eximo recurso. Frutos do ensinamento do missionário Hansas. A oração.

 “ Peçam, e será dado; busquem, e o encontraram, batam, e a porta será aberta” Mt 7.7.

Assim ele orou. Pedindo a Deus que o ensine sobre eletricidade. Talvez Mario Castro nunca tivesse experimentado uma experiência do sagrado de forma tão pratica. E num certo dia, o absurdo começa a desabsurdar.

 Surge a epifania do sagrado. Deus se apresenta a Mario Castro e lhe dar uma visão. Nessa aparição o Sagrado instrui passo a passo a construção de um sistema elétrico. Mario atordoado, sem saber se tira as sandálias dos pés. Recebe a instrução. Uma voz como o som de muitas aguas dizia:

Escreve.

E assim como João na ilha de Patmos, escreverá tudo o que via. Mario Castro esboçava os princípios fundamentais da energia.

 Ao termino, tinha em suas mãos toda estruturação de um sistema elétrico. E em seguida a majestosa voz o instruirá para a realização do trabalho em serviço da comunidade. Assim Mario se torna um grande eletricista cujo Mestre fora o Pai das luzes.

O serviço é algo fundamental na vida cristã. Certa vez Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram de Jesus e disseram: “Mestre queremos que nos faça o que vamos te pedir”. E pedem a Cristo: “Permita que na sua Glória, nos assentemos um à tua direita e outro a sua esquerda”. Talvez os discípulos não tivesse noção do que estavam pedindo ao Mestre. Pois para determinados méritos eram necessários o ingerir de alguns cálices amargos e o batismo da angustia e sofrimento.

Sublimemente Jesus responde:

“quem quiser torna-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muito”.

Assim devemos agir todos nós. Uma vida de serviço em detrimento do outro. Pois nas epifanias da vida o servir sempre é seu destino final. Quem não vive para servir, não serve para viver.

  DANIEL MOTA MENDONÇA

PAGANDO AS CONTAS DA REFORMA: REFLEXÕES SOBRE A IDENTIDADE CRISTàCONTEMPORÂNEA

No ano de 2017, estamos comemorando 500 anos da Reforma Protestante. A data por si só nos convida à celebração. E, sem dúvida, muitos eventos devem ocorrer ao longo do ano. Porém, além das comemorações, é importante também a realização de momentos de estudo e reflexão. Continuar lendo “PAGANDO AS CONTAS DA REFORMA: REFLEXÕES SOBRE A IDENTIDADE CRISTàCONTEMPORÂNEA”

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Escolher uma carreira, idealizar uma profissão, são tomadas de decisão que nortearão o tráfego horizontal de nossa existência. A atual sociedade, além de ser niilista, é totalmente competitiva; diante desse paradoxo social do aniquilamento ao nada, para a excelência da carreira almeja, o livro histórico do Novo Testamento – Atos dos Apóstolos – nos apresenta uma estupenda declaração expressa por Paulo de Tarso:

Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”.[1] Continuar lendo “VOCAÇÃO: REFLEXOS DE UM PROPÓSITO ETERNO NA VIDA REAL”